segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

A menina que construía castelos




Melissa sempre viveu em seu próprio mundo. Quando criança construía castelos invisíveis e lá dentro tudo era possível. Não havia a princesa que precisa sempre ser salva pelo príncipe. Não havia a madrasta má e invejosa. O mundo dela era atípico. Colorido, com objetos que de inanimados nada tinham. Lá, ela era a princesa e também a sua própria heroína. Tinha a ponte erguida por cima do lago, mas ali não morava nenhum monstro mitológico ou um crocodilo gigante. Ali, Melissa tomava banhos nos dias quentes de verão, nadava com os peixes e no inverno, quando a neve chegava, o lago virava uma grande pista de patinação, onde ela caia, dava risada, se machucava um pouquinho, mas se divertia. 

Quando o castelo era invadido pela realidade, Melissa se entristecia. As paredes caiam, o quarto voltava a ter as mesmas paredes rosa bebe, com quadrinhos de paisagens bonitas, a velha boneca continuava no mesmo canto de onde ela nunca saia. A mochila ao lado da cama anunciava que era hora de ir pra escola e que não adiantaria ela mover todo o seu exercito encantado, ela teria que ir. 

Deu um beijo na mãe, entrou no ônibus da escola e foi para, o que era pra ela, o pior momento do dia. Não que não gostasse de estudar. Melissa tinha uma sede por conhecimento que talvez nenhuma outra criança na mesma idade tivesse. Curiosa que só, anotava no caderno da escola tópicos de assuntos ou palavras que ela nunca ouvira falar. Em casa, passava horas imersa em livros, devorando cada pedaço de conhecimento que podia. Mas a escola... momento de pura tortura. Melissa não se dava bem com nenhuma outra criança. Todos os coleguinhas a achavam estranha, calada. Os cabelos longos, de um castanho quase loiro, sempre deixavam o rosto da menina semi-coberto. Os olhos estavam sempre em um lugar distante e ninguém nunca ouvia a sua voz. Entrava calada, saia calada. Passava o recreio em um lugar escondido no patio da escola, sempre brincando com a própria imaginação. 

Melissa, na verdade, não se importava com as outras crianças. Não gostava de gente de verdade. Quando, enfim, o último sinal da escola tocava, Melissa respirava aliviada. Poderia voltar ao seu castelo, reconstruir seus muros altos e viver no mundo ímpar que era só dela. 

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